segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Who'd have known

Sinto-me caixa d'óculos. Um bom bocado.
E estou a aprender a viver com isto.
Passei metade da minha adolescência a tentar convencer meio mundo que devia usar lentes.

Óculos é de intelectualóide, não é de sexy, e eu queria ser sexy.

Há pouco tempo escolhi uns óculos novos. Para usar de vez quando, para usar quando as lentes me cansassem.
Mas,de repente, sem avisar, os óculos voltaram, permanentes.

"E mudar de corpo, por acaso, não é uma coisa nem tão engraçada nem tão fácil assim."

Estou a tentar aprender com quem sabe:

Nós, os caixas-d'óculos

por
Ana Sá Lopes
ana.s.lopes@dn..pt12 Janeiro 2007
Um caixa-d'óculos é uma criatura que acredita que uma prótese é melhor que o seu próprio corpo. Como explicar a recusa das agora absolutamente vulgarizadas lentes de contacto? Sim, dão uma trabalheira, parece que se perdem por dá cá aquela palha e perturbam a caça ao "cisco" no olho.
Mas a mais definitiva das razões é que os caixas-d'óculos passaram a gostar mais dos seus óculos do que dos seus olhos. Habituaram-se. Descobriram na prótese uma harmonia qualquer antes inexistente na matéria que Deus lhe deu. Adoptaram um pedaço de massa ou de metal e adjudicaram-no à área de reserva protegida do seu próprio corpo. Têm qualquer coisa a mais ou a menos mas não são infelizes.
Usar óculos tem vantagens, a começar por aquela muito básica - servem para contentar o impulso muito humano de "ter à mão qualquer coisa a que se agarrar". Por isso e outras coisas, os caixas-d'óculos criam relações estapafúrdias com os óculos, como se faz com toda e qualquer coisa do céu e da Terra de que se tenha extrema dependência. P. dizia ontem que sente os óculos como uma espécie de "melhores amigos". N. nunca permitiu que lhe tocassem nos óculos, nem ao de leve. M. nunca fez nada, quase nada, sem óculos (menos tomar banho e dormir). Aquela turbamulta que, nos hospitais, nos retira sanguinariamente os óculos quando entramos em estados mais delicados não percebe que nos está psicologicamente a derrubar e a derrotar a última das nossas defesas. A retirar-nos, até melhores notícias, uma parte vital do corpo. A sonegar-nos o direito à personalidade - que, é o que toda a gente diz, se vê nos olhos e os nossos são assim.
Quando um caixa-d'óculos muda de óculos segue o ritual da operação plástica: que nariz novo agora vou escolher? Aumento o peito e para quanto? Faço uma lipoaspiração? E se, depois, não me reconheço? Hoje, a banalização das plásticas permitiu que grandes franjas do corpo se tivessem tornado amovíveis e modificáveis ao sabor dos ventos. Nós, os caixas-d'óculos precoces, convivemos com isso desde pequeninos. E mudar de corpo, por acaso, não é uma coisa nem tão engraçada nem tão fácil assim.



Sem comentários:

Enviar um comentário