Tenho mil histórias para contar da viagem de Bruxelas.
Mil e uma pequenas coisas em que reparei.
De novo a ver as coisas com outros olhos, a ser eu.
Mas hoje, e a propósito de alpercatas só me apetece falar num avô que é emprestado. Na verdade, também é meu, se bem que só há 6 anos, e me adoptou quase ao mesmo tempo que o avô Vítor se apagou.
Parece de propósito.
É frágil, move-se com dificuldade, mas o que as pernas não levam, leva ele cá dentro.
"Ena! Já não via disso há muito tempo! Olha, quem usava isso lá no Alentejo eram os contrabandistas - assim não faziam barulho e ninguém dava por eles. Só que eu tinha um cão, o gajo era tramado, não podia ver um homem com alpercatas que o mordia logo. Nem ladrava! Esse cão era tramado...!".
O cão Leão que não tocava na comida dos donos, mas não resistia a roubar a dos outros, quando os visitava.
E daquela vez em que ele - ri-se à gargalhada antes de conseguir contar, os olhos brilham ao ver o passado lá dentro - e daquela vez em que ele, num dia de chuva, foi comer a farinha do vizinho? Apareceu todo branco - ele que ainda por cima era escuro, Rafeiro do Alentejo.
São 92 anos de memórias limpas e transparentes.
O que as pernas não levam, leva ele cá dentro.
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