quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Je t'ai dans la peau


Tenho uma mãe Chevalière de l'Ordre des Arts et des Lettres.

E no seu discurso, falado não lido, sem papel, com voz firme, não falou das conveniências, dos protocolos, da honra (da qual se está um bocado nas tintas), mas falou do contributo dos outros para chegar onde chegou.
Dos amigos, do mais novo ao mais velho, do marido, das filhas, do genro em particular, da família em geral. Até falou da mãe com cuja imagem combate diariamente na tentativa infrutífera de não ser igual - mas os nossos genes não deixam e afastamo-nos da linha para regressar sempre à energia permanente que nos faz andar para a frente com uma força maior do que nós.
No caso dela, da mãe da minha mãe, é essa energia que surge quando, já velhinha, se esquece das coisas mas quer sempre voltar para casa cedo porque "pode haver visitas e tenho de fazer o jantar para elas" (e já não há visitas).

No nosso caso, é a luta, diária, para fazer coisas. É um nunca estar satisfeita - talvez quando devessemos - porque há sempre mais e procurá-lo, mesmo que sem o ter, é ser feliz.
Porque as pegadas apagam-se e o nosso presente tem muito de futuro e muito pouco de passado.

2 comentários:

  1. Foi uma alegria imensa estar presente na cerimónia, cuja pompa - própria destas cerimónias - foi maravilhosamente aliviada pela beleza do discurso, que saía do coração.
    Acho que o descreves de forma muito bonita e absolutamente verdadeira, espontaneidade herdada da tua Mãe e presente no tal discurso.
    Um grande abraço,
    F

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