sexta-feira, 21 de julho de 2017

A vida toda

Este blog vai morrer.
Já está a morrer.

A Siena está doente, velhinha. 12 anos já é qualquer coisa. E um tumor é muita coisa.
Vai morrer.

Já não escrevo aqui como escrevia há tempos. Já não preciso.
Houve uma altura em que o blog me ajudou a conspurcar males latentes, a desabafar quando já não queria preocupar mais ninguém, a declarar ao mundo o meu amor quando não podia fazê-lo a mais ninguém.

Nos últimos meses ia mudar de vida e de país e já não vou.
Ia mudar de casa e mudei, e nem escrevi sobre isso e sobre o quão feliz estamos nesta nossa casa nova. Os três.
Ia ser tia novamente e já não vou ser. Pelo menos do bebé que ia ser e afinal não foi.
Achava que nunca conseguiria ter um segundo filho e afinal até pode ser que aconteça naturalmente. Ou não. Mas deixou de ser um drama.

E a Siena vai morrer. Sem dramas.

Não escrevi sobre nada disto provavelmente porque cresci.
Porque ligo a quem preciso, porque danço com o Pedro, porque choro sempre que preciso para no dia seguinte entrar de rompante no nosso quarto, com música e a dançar com a Ema enquanto acordamos o Pedro.

Não escrevo porque estou ocupada a viver.
Porque deixei de ter pena de mim.
Porque olho para trás e relativizo muita coisa.

E porque como escrevi há uns tempos, a vida é o que deixamos de amor.
Não é o que deixamos escrito.

Vou amar a Siena para sempre.
Vou levá-la para morrer com a dignidade que merece.
Vou agradecer-lhe tudo o que me deu.
E quando ela morrer, este blog ficará como as memórias que escrevi com o nome dela.

Se quiserem saber de mim, vou estar por aí a viver.
A Vida toda.

quarta-feira, 26 de abril de 2017

Não é verdade

Chorei muito.
Incrédula.
Como é que podia sentir um misto de emoções tão grande?
Como é que é possível estar simultaneamente e genuinamente feliz por outros e tão triste por não me poder rever no mesmo cenário?
Falei nisso e simultaneamente fechei-me em copas.
Não fingi que estava tudo bem, mas continuei a andar para a frente.

Primeiro a Ema começou a acordar (sentiu?).
Depois veio o meu corpo a dar de si.

Às vezes o corpo obriga-nos a parar.
O meu obriga-me a reconhecer que não, não está tudo bem.

Mas a alma recusa-se a desistir. A chorar demais, se houver demais.

Corpo, a vida explica-se a ela própria e daqui a uns meses ou anos vou olhar para isto ainda de coração pequenino.
Mas estará cheio.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Se Me Deixasses Ser

Ontem tive a confirmação de algo que já sabia há muito: ter a Ema foi um pequeno milagre.
Ter acontecido naquela altura de forma espontânea. Foi um pequeno milagre.

Voltei para casa em paz. Talvez com mais vontade que um novo milagre - mas já não tão milagre assim - aconteça.
Que se lixe o dinheiro, que se lixe o trabalho, que se lixe o cansaço (há-de cansar tanto mais).
A vida é o que deixamos de amor. E o que levamos de coração cheio.

E talvez por isso, acordei as vezes que foi preciso para te dar conforto, querida Ema. E com muito mais paz do que há muitos dias.

A vida é o que deixamos de amor.