Quando eu era pequena, éramos quatro, e andávamos nas traseiras da casa da Avó, seja no jardim, seja nos descampados que entretanto são hoje o Parque da Cidade.
A minha irmã e o M. (que tinham a mania que eram grandes) tratavam-me mal e porcamente, mas às vezes tu tinhas pena de mim. E lá me deixavas ir convosco, ervas fora (ai se há cobras! Não vejo nada!), perder as minhas carteiras do Nenuco e das Barriguitas.
Fazíamos-te buracos no jardim da Avó, enchíamos com água e tapávamos numa bela cama de erva, como se tu nunca fosses dar conta que era uma armadilha, tal qual como nos filmes. Normalmente não caías, mas houve uma vez que fingiste bem e até caíste lá dentro. Não contavas com a água e ficaste furioso por estar todo molhado, naquilo que para ti, no auge da tua adolescência, era a humilhação total.
Gostávamos de fugir de ti, como se fosse impossível que nos apanhasses.
E depois, naquele dia em que decidimos lutar com os botões das camélias (aos tiros para cá e para lá), também acabaste por entrar na brincadeira e atiraste mais que os outros.
Ninguém reparou, até que um dia, quando a Cameleira desabrochou, se viu que nenhuma flor nascera abaixo de um metro e meio.
Graças a ti (e ao teu irmão), passei a poder abrir as prendas à meia-noite como gente normal e não às seis da manhã do Dia de Natal, depois de uma noite em claro a pensar no que seria.
Gabavas-te dos teus livros e do teu computador, e eu fazia sempre que sim, a achar que tinha um primo espectacular.
Depois, fomos um dia a Cabo-Verde, todos juntos, e tu ficaste indignado porque eu te disse, enquanto jogávamos King, que, nas férias, me estava nas tintas para a matemática. Nunca mais estive.
Não preciso de o dizer porque entre nós, todos os quatro, há cumplicidade dos primos e daqueles dias de sol no jardim da Avó.
Não preciso de to dizer porque tu estás aí, a lutar para ficar bom, e vais ficar.
Mas estou cheiinha de saudades.
E quero atirar-te com uns quantos botões de camélia da próxima vez que te vir.
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